Apesar de ter sido criado em São Paulo, a maior metrópole da América Latina, aquela que — tópico controverso — nunca dorme, o contexto de minha criação sempre foi extremamente rural. Sou o único da minha geração familiar a ter vivido a maior parte da vida na capital paulista, mas crescer em um ambiente onde as únicas referências eram do interior de Minas Gerais afastou, durante muito tempo, qualquer possibilidade de me reconhecer como urbano.

Sempre que penso sobre esse assunto, a primeira imagem que me vem à mente é a de um estacionamento subterrâneo caindo aos pedaços, repleto de fios desencapados e nuvens de fumaça de cigarro, em algum lugar pelas redondezas da Zig Club. Eu tinha 18 anos e mal consumia bebidas alcoólicas. Não faço ideia de qual festa era aquela, mas a experiência permaneceu comigo. O que deveria ter sido apenas um passeio de final de tarde com alguns amigos terminou em uma vivência que, mesmo meses depois, com o início da pandemia de covid-19 e a interrupção brusca de experiências sociais que poderiam ter ajudado mais rapidamente alguém tão tímido e introvertido quanto eu a se soltar, continuou reverberando em minha memória.


Foi dentro de casa, durante o período de isolamento social, que passei a consumir música eletrônica, especialmente gêneros atrelados ao pop, como electropop, hyperpop e bubblegum pop. Quando a pandemia terminou, as minhas primeiras festas orbitaram um universo estritamente pop e, junto a isso, uma sensação constante de desencontro. Até o dia do fatídico rito de passagem da Mamba Negra, ao lado de amigos que também não tinham familiaridade com a cena. Foi mágico perceber tantas pessoas diferentes reunidas em um mesmo lugar.


Desde então, foram festas, pessoas e experiências que alteraram profundamente a maneira como compreendo o mundo e a mim mesmo. Não é que eu tenha passado a me reconhecer como urbano simplesmente por frequentar pistas de dança, mas foi a partir das experiências noturnas que os meus envolvimentos diurnos com música, cinema, teatro, arte e moda começaram a ganhar corpo. Para além do meu interesse por música eletrônica e vida noturna, o que me motivou a realizar este trabalho foi a percepção de que certas experiências coletivas possuem a capacidade de alterar silenciosamente a forma como alguém ocupa o próprio corpo, observa os outros e se movimenta pela cidade. Espero que gostem.

Apesar de ter sido criado em São Paulo, a maior metrópole da América Latina, aquela que — tópico controverso —, nunca dorme, o contexto da minha criação sempre foi extremamente rural. Sou o único da minha geração familiar a ter vivido a maior parte da vida na capital paulista, mas crescer em um ambiente onde as únicas referências eram do interior de Minas Gerais afastou, durante muito tempo, qualquer possibilidade de me reconhecer como urbano.

Sempre que penso sobre esse assunto, a primeira imagem que me vem à mente é a de um estacionamento subterrâneo caindo aos pedaços, repleto de fios desencapados e nuvens de fumaça de cigarro, em algum lugar pelas redondezas da Zig Club. Eu tinha 18 anos e mal consumia bebidas alcoólicas. Não faço ideia de qual festa era aquela, mas a experiência permaneceu comigo. O que deveria ter sido apenas um passeio de final de tarde com alguns amigos terminou em uma vivência que, mesmo meses depois, com o início da pandemia de covid-19 e a interrupção brusca de experiências sociais que poderiam ter ajudado mais rapidamente alguém tão tímido e introvertido como eu a se soltar, continuou reverberando em minha memória.


Foi dentro de casa, durante o período de isolamento social, que passei a consumir música eletrônica, especialmente gêneros atrelados ao pop, como electropop, hyperpop e bubblegum pop. Quando a pandemia terminou, as minhas primeiras festas orbitaram um universo estritamente pop e, junto a isso, uma sensação constante de desencontro. Até o dia do fatídico rito de passagem da Mamba Negra, ao lado de amigos que também não tinham familiaridade com a cena. Foi mágico perceber tantos tipos diferentes de pessoas reunidos em um mesmo lugar.


De lá para cá, foram festas, pessoas e experiências que alteraram profundamente a maneira como compreendo o mundo e a mim mesmo. Não é que eu tenha passado a me reconhecer como urbano simplesmente por frequentar pistas de dança, mas foi a partir das experiências noturnas que os meus envolvimentos diurnos com música, cinema, teatro, arte e moda começaram a ganhar corpo. Para além do meu interesse por música eletrônica e vida noturna, o que me motivou a realizar este trabalho foi a percepção de que certas experiências coletivas possuem a capacidade de alterar silenciosamente a forma como alguém ocupa o próprio corpo, observa os outros e se movimenta pela cidade. Espero que gostem.