sete anos atrás, o corpo de eros ainda não sabia dançar. curioso, como todo garoto, ele foi à vampire haus e teve o seu primeiro contato com uma festa de música eletrônica. curiosamente uma das mais, digamos, peculiares. ele não sabia exatamente o que era aquele som nem por que as pessoas se moviam e se vestiam daquela forma, então sentiu medo, de maneira quase infantil. “cadê a mãe de vocês, garotos?”, relembra eros, rindo, de uma das poucas interações que teve com alguém que não fazia parte de seu grupo de amigos. aos 18 anos, ele conheceu um universo caótico, que contrastava, e muito, com as festas de música pop que costumava frequentar.

carolina schutzer e laura diaz, ou melhor, cashu e carneosso, são os nomes por trás daquela que, ao longo de pouco mais de uma década, atuou como um dos principais ritos de passagem da cena, ainda que sem a pretensão.




Legado
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ainda não se tratava de uma cultura estruturada, com características próprias. pelo contrário, o espelhamento nas discotecas de nova iorque era quase total. mas já se delineava um espaço em que corpo, luz e som passavam a operar em conjunto.
ao longo da década, espaços como massa rara, na penha, e cave, em pinheiros, apesar de pouco registrados, reuniam músicos que prolongavam a madrugada ao som de bee gees. foi nesse contexto que se consolidou uma figura central da história da discotecagem no brasil, a de sonia abreu, a primeira dj brasileira. antes mesmo de existir um reconhecimento formal da profissão, ela já conduzia a narrativa da noite a partir da curadoria musical.
o rose bom bom, inaugurado em 1983 no bairro dos jardins, era o coração desse período. o espaço, comandado por ângelo leuzzi, foi um dos primeiros a apresentar o house para os paulistanos.
no sentido oposto, o madame satã, inaugurado no ano seguinte, em 1984 na bela vista, deu início à formatação daquilo que se conhece hoje como underground. lá, os djs magal e marquinhos ms tiveram influência na sonoridade que estabeleceu o clube como espaço de experimentação estética e comportamental, atraiu públicos pouco enquadráveis e criou os primeiros códigos da cena.
no ano seguinte, em 1988, o nation, nos jardins, levou esse princípio adiante ao adotar o termo “clubber” como marcador identitário. esse viés comunitário emergiu em meio à intensificação da violência policial contra a população lgbtq+, que constituía a maior parte de seu público. no ano anterior, a operação tarântula, um ofensiva policial direcionada à mulheres trans e travestis sob o pretexto de “combater a aids” havia aberto feridas que não se fechariam.
anos 90: warehouse e techno rebels. os anos 1990 marcaram a era de ouro da cultura clubber, com a consolidação da cena como uma realidade estruturada. foi quando os clubes se expandiram e o house e o techno ganharam incontáveis subgêneros. o tremo “house” tem origem na loja de vinis do dj norte-americano frankie knuckles em chicago, warehouse music, responsável pelas curadorias iniciais relativas ao gênero. já “techno” surge de “techno rebels”, como o futurólogo alvin toffler se refeririu ao tipo de música futurista criado por derrick may, juan atkins e kevin saunderson, os belleville three, em detroit. foi quando, também, os signos da pista se tornaram aspectos centrais da vida noturna.
o massivo, inaugurado em 1991 nos jardins, sintetizou essa transformação ao retomar o hedonismo dos anos 70 de maneira mais explícita, com uma estética que ampliava as possibilidades de expressão de gênero e sexualidade e transformava a noite em uma experiência contínua.
no ano seguinte, em 1992, surgiu o srta. krawitz, em santa cecília, responsável por demarcar, de maneira mais nítida, os limites entre o pop e o underground, ao mesmo tempo em que introduziu novas dinâmicas sociais na pista, com a presença de drag queens. no mesmo período, o sound factory, na penha, deslocou o eixo geográfico da cena ao levar a música eletrônica para a zona leste e reunir milhares de pessoas. a cultura clubber já não se limitava mais à região dos jardins.
em 1994, o hell’s club introduziu o conceito de “after hours” e transformou o domingo em extensão da noite. foi a partir do hell’s club, também, que o uso do ecstasy, vindo dos países baixos, se instaurou como elemento estruturante da experiência da pista, alterando drasticamente as formas de interação entre os frequentadores.
ao final da década, o surgimento dos superclubes, com destaque para o b.a.s.e., nos jardins, e o florestta e o lov.e club, na vila olímpia, introduziu um novo patamar de profissionalização e tecnologia. são paulo estaria a poucos passos de se tornar um dos principais polos da música eletrônica no mundo.
anos 2000: mainstream e underground. nos anos 2000, a cultura clubber passou por um processo de expansão que a inseriu de forma definitiva nos circuitos nacional e internacional, sem que as suas bases originais deixassem de existir. a cena, que, antes, se construía em locais efêmeros passou a ocupar espaços cada vez mais visíveis, com eventos de grande porte. essa profissionalização trouxe reconhecimento e visibilidade, mas também abriu debates sobre autenticidade e pertencimento, levantando questões sobre até que ponto seria possível crescer sem sacrificar a essência de sua comunidade fundadora.
o primeiro skol beats, no ano 2000, simbolizou essa virada. o festival reuniu grandes nomes da música eletrônica nacional e internacional. mais do que uma festa, um marco de legitimação do gênero em escala massiva que mostrou que a cultura clubber não era apenas uma moda passageira, mas uma força capaz de dialogar com a indústria musical global. a produção técnica de alto nível e o apelo comercial transformaram o evento em referência e modelo para os anos seguintes.
clubes como o d-edge, na barra funda, inaugurado em 2003 sob o comando de renato ratier, elevaram o nível de sofisticação da experiência e aprofundaram o conceito de “superclubes” ao criar ambientes imersivos onde cada detalhe é pensado para potencializar a relação entre som e espaço.
paralelamente, movimentos de rearticulação, especialmente a partir de coletivos independentes, deram início à movimentação responsável por moldar a cena na década seguinte. nesse contexto, surgiram, em regiões centrais, espaços como o xingu, responsável por revelar o duo noporn, e o coletivo voodoohop passaram a propor, por volta de 2008, uma retomada de formatos menos institucionalizados, promovendo a mistura de gêneros e públicos. essa tensão entre sofisticação e espontaneidade marcou a década e evidenciou os conflitos internos de uma cena em expansão.
anos 2010: nós vamos ocupar. nos anos 2010, a cultura clubber atravessou um processo de transformação que deslocou parte significativa de suas práticas para fora dos clubes tradicionais e dos grandes festivais, incorporando novas formas de organização e ocupação do espaço urbano. os coletivos passaram a assumir um papel central na reestruturação da cena, articulando música, performance e discurso em eventos que buscavam ampliar a diversidade.
blum, carlos capslock, gop tun, mamba negra, odd, tesãozinho inicial e vampire haus são apenas alguns daqueles que propuseram a ocupação de galpões, espaços públicos e locais não convencionais, bem como novas formas de experiência coletiva.
o movimento se relacionou diretamente com transformações políticas e sociais mais amplas, como as jornadas de junho de 2013 e o fortalecimento de pautas identitárias, que passaram a refletir de maneira mais explícita na pista.

Disputa
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escadaria da memória, 2016. a cinco anos de completar um século desde que foi inaugurado, um dos maiores ícones arquitetônicos e urbanísticos de são paulo seguia fazendo jus ao nome que recebeu. construída para dar suporte ao primeiro monumento da capital paulista, o obelisco do piques, com mais de 200 anos de história, sediava um encontro improvável. nada de escuridão, nada de filas, nada de ingressos. a trilha sonora era de maria olivia e pedro athie. de um lado, famílias passeavam com carrinhos de bebê. de outro, comerciantes em mais um dia de trabalho. ao centro, jovens criavam, no improviso, algum tipo de dança. nem todos foram convidados formalmente, mas todos estavam lá, quando, durante algumas horas, a rua deixou de ser passagem e se tornou permanência e uma pista de dança surgiu onde, até então, havia trânsito.
sob esse tipo de deslocamento se faz a atuação de coletivos como a tesãozinho inicial, que, comandada por maria olívia aporia e pedro athie, se propõe a tensionar a maneira como são paulo se organiza. para a dupla, ocupar as ruas nunca foi apenas uma questão estética, mas também uma forma de insistir na cidade como espaço de encontro.
ao comentar sobre as limitações impostas à cena nos dias atuais, como as condições burocráticas e financeiras para a realização de eventos em espaços públicos e a aplicação predatória de normatizações como a lei do silêncio, maria olivia provoca, em tom irônico: “quem dorme às duas horas da manhã”?.

a pergunta, mais do que retórica, expõe um conflito direto entre a maneira como o poder público regula a cidade e os modos de vida de grupos populacionais específicos. quando as ruas são fechadas e a “curtição” deslocada para clubes privados e rooftops, o acesso deixa de ser diverso e passa a ser hierarquizado, reorganizando a cena em torno de filtros econômicos e sociais. em resposta a esse descompasso, a tesãozinho inicial desenvolveu um modelo próprio de sustentação, baseado na lógica de “uma festa paga por uma festa gratuita”, em uma tentativa de preservar o caráter diverso e acessível da experiência.

durante muito tempo, a geografia da música eletrônica em são paulo se concentrou em clubes fechados, localizados, em maioria, nos bairros mais valorizados da região central, como os jardins. na última década, essa lógica começou a mudar e coletivos independentes de música eletrônica passaram a ocupar galpões industriais, prédios antigos, estacionamentos esquecidos, botecos de rua e, principalmente, espaços, em tese, livres do centro. para muitos organizadores, esses espaços oferecem possibilidades que clubes tradicionais já não proporcionam mais e permitem imaginar festas de maneira mais livre.

espaço público para o público. tereza herling é arquiteta e urbanista especializada em equipamentos públicos. ela observa que iniciativas como as da tesãozinho inicial explicitam disputas silenciosas sobre o uso da cidade e criam experiências urbanas temporárias que desafiam os usos tradicionais do espaço público, que, segundo herling, tem sofrido cada vez mais com a presença crescente de concessionárias e a especulação imobiliária.

essa lógica impacta drasticamente a experiência do público. o aumento no preço dos ingressos não é resultado apenas do aumento na demanda, mas principalmente do aumento dos custos estruturais. “se é caro para quem compra o ingresso, imagina para quem faz a festa”, instiga eros, apenas um dos milhares de frequentadores que sentem, há anos, os danos do embate entre a prefeitura de são paulo e o setor cultural da maior cidade da américa latina.
mesmo áreas formalmente públicas passam a exigir pagamento para uso, pois foram concedidas à iniciativa privada, o que desloca coletivos independentes para uma posição de constante negociação. “a cidade passa a selecionar quem pode ocupar determinados espaços”, afirma herling. alguns desses espaços são o vale do anhangabaú e a praça das artes, formalmente públicos, mas que, na prática, operam sob lógicas excludentes. realizar uma festa em locais como o komplexo tempo, um galpão privado devidamente estruturado para receber eventos de grande porte, acaba sendo muito mais viável.
quem conta isso é gabriel lopes, que, junto a lucas araque e jazon oliveira, fundou um dos principais nomes da cena nesta nova década, a novo affair. criado em 2023, o coletivo nasce no momento de crescimento abrupto da demanda por eventos e do aumento generalizado dos custos no setor, e se consolidou, tanto em público quanto em afeto, no calendário da cena.

originalmente outsiders, com experiências anteriores em festas menores em brasília e são paulo, os três se aproximaram e passaram a estruturar o próprio projeto, com a proposta de criar uma festa lgbtq+ de música eletrônica que fosse leve, alegre e dançante e profissional, atenta às condições de trabalho, experiência do público e diversidade de artistas. com line-ups frequentemente compostos por pessoas trans e racializadas, além de uma proposta sonora que transita entre diferentes vertentes musicais, a novo affair busca acolher também públicos que não necessariamente vêm da música eletrônica pesada com o qual a cena acabou se acostumando nos últimos anos. “se nós temos uma edição que foi boa para o público, mas não foi boa para quem trabalhou nela, então não foi uma edição boa”, declara gabriel ao se referir à importância de uma experiência positiva que seja 360º.

há de ser resistência. nem sempre a ocupação cultural e artística dos espaços públicos paulistanos enfrentou tantos obstáculos. durante a primeira metade da década passada, políticas públicas permitiram e incentivaram experiências mais amplas no espaço urbano. um dos programas mais lembrados pelos produtores da cena é o sp na rua, que viabilizava apresentações musicais e performáticas para todos. a tesãozinho inicial foi uma das beneficiadas por essa iniciativa, conta maria olivia, relembrando, de maneira saudosista, de uma época em que “ferviam subculturas na cidade”.

o sp na rua foi encerrado em 2017, durante o primeiro ano da gestão de joão doria. para a dj alírio, espaços de proteção são os primeiros a serem atravessados pelas tensões do mundo externo: “quando nós estamos passando por momentos difíceis, politicamente, essa barreira vai enfraquecendo”.
entre 2013 e 2016, uma série de iniciativas municipais abriu o espaço urbano para experiências artísticas diversas, com programas que incentivavam a ocupação de ruas, praças e equipamentos públicos por produtores independentes. a virada aconteceu abruptamente com a troca de gestão, em 2017, quando cortes orçamentários profundos desativaram ou enfraqueceram políticas que levaram anos sendo construídas.
gabriel, da novo affair, identifica uma mudança decisiva a partir da gestão de joão doria, quando, segundo a sua leitura, a tolerância institucional em relação ao uso festivo do espaço urbano diminuiu drasticamente. “ou você tem patrocínio ou você vai fazer uma festa elitizada”, afirma. entre alvarás, exigências administrativas crescentes e a progressiva verticalização de regiões antes mais permissivas, como partes da barra funda, o que se consolida é uma cidade cada vez menos disponível para experiências noturnas espontâneas e independentes.

os dados não mentem. as gestões seguintes não reverteram completamente esse quadro, e os últimos anos trouxeram um novo ingrediente: disputas ideológicas que passaram a interferir diretamente na programação de espaços públicos e na escolha de quem os ocupa.
diante desse cenário, práticas como lista trans e entrada gratuita até determinado horário, operam como tentativas concretas e discretas de enfrentar assimetrias históricas. não se trata apenas de ampliar o público, mas de reconhecer que determinados corpos encontram barreiras sistemáticas para ocupar esses espaços e, portanto, exigem medidas específicas para que essa presença seja possível.
em 2015, em recife, ana giselle, também conhecida como transälien, articulou uma das iniciativas de inclusão mais influentes da noite queer brasileira contemporânea ao criar a política de lista trans free, que garante entrada gratuita para pessoas trans e travestis em eventos privados. a medida foi implementada pela primeira vez na kebran, festa produzida pela própria artista na capital pernambucana, e nasceu da percepção de que não bastava haver artistas trans nos line-ups se os próprios corpos para os quais aqueles espaços, em tese, se destinavam, continuassem ausentes da pista. em são paulo, a iniciativa foi apresentada, mais tarde, à mamba negra, cuja adesão funcionou como catalisador para a sua disseminação entre outras festas da cidade.
apesar do sufoco imposto pelas políticas públicas atualmente em vigência, há sinais de que, sob gestão adequada, brechas podem se abrir. a edição de 2025 da virada cultural de são paulo, por exemplo, contou com palcos oficiais de festas como mamba negra, carlos capslock e submundo 808, marcando uma rara inserção da cena independente no calendário oficial da cidade na história recente.

iniciativas como estas não solucionam desigualdades estruturais, mas apontam para a possibilidade de que o público se mantenha público. quando o estado reconhece, ainda que pontualmente, o valor político dessas ocupações, elas passam a ser, acima de tudo, reivindicações de um futuro. há demanda, e sempre vai haver.

Afeto
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