escadaria da memória, 2016. a cinco anos de completar um século desde que foi inaugurado, um dos maiores ícones arquitetônicos e urbanísticos de são paulo seguia fazendo jus ao nome que recebeu. construída para dar suporte ao primeiro monumento da capital paulista, o obelisco do piques, com mais de 200 anos de história, sediava um encontro improvável. nada de escuridão, nada de filas, nada de ingressos. a trilha sonora era de maria olivia e pedro athie. de um lado, famílias passeavam com carrinhos de bebê. de outro, comerciantes em mais um dia de trabalho. ao centro, jovens criavam, no improviso, algum tipo de dança. nem todos foram convidados formalmente, mas todos estavam lá, quando, durante algumas horas, a rua deixou de ser passagem e se tornou permanência e uma pista de dança surgiu onde, até então, havia trânsito.
sob esse tipo de deslocamento se faz a atuação de coletivos como a tesãozinho inicial, que, comandada por maria olívia aporia e pedro athie, se propõe a tensionar a maneira como são paulo se organiza. para a dupla, ocupar as ruas nunca foi apenas uma questão estética, mas também uma forma de insistir na cidade como espaço de encontro.
ao comentar sobre as limitações impostas à cena nos dias atuais, como as condições burocráticas e financeiras para a realização de eventos em espaços públicos e a aplicação predatória de normatizações como a lei do silêncio, maria olivia provoca, em tom irônico: “quem dorme às duas horas da manhã”?.

a pergunta, mais do que retórica, expõe um conflito direto entre a maneira como o poder público regula a cidade e os modos de vida de grupos populacionais específicos. quando as ruas são fechadas e a “curtição” deslocada para clubes privados e rooftops, o acesso deixa de ser diverso e passa a ser hierarquizado, reorganizando a cena em torno de filtros econômicos e sociais. em resposta a esse descompasso, a tesãozinho inicial desenvolveu um modelo próprio de sustentação, baseado na lógica de “uma festa paga por uma festa gratuita”, em uma tentativa de preservar o caráter diverso e acessível da experiência.

durante muito tempo, a geografia da música eletrônica em são paulo se concentrou em clubes fechados, localizados, em maioria, nos bairros mais valorizados da região central, como os jardins. na última década, essa lógica começou a mudar e coletivos independentes de música eletrônica passaram a ocupar galpões industriais, prédios antigos, estacionamentos esquecidos, botecos de rua e, principalmente, espaços, em tese, livres do centro. para muitos organizadores, esses espaços oferecem possibilidades que clubes tradicionais já não proporcionam mais e permitem imaginar festas de maneira mais livre.

espaço público para o público. tereza herling é arquiteta e urbanista especializada em equipamentos públicos. ela observa que iniciativas como as da tesãozinho inicial explicitam disputas silenciosas sobre o uso da cidade e criam experiências urbanas temporárias que desafiam os usos tradicionais do espaço público, que, segundo herling, tem sofrido cada vez mais com a presença crescente de concessionárias e a especulação imobiliária.

essa lógica impacta drasticamente a experiência do público. o aumento no preço dos ingressos não é resultado apenas do aumento na demanda, mas principalmente do aumento dos custos estruturais. “se é caro para quem compra o ingresso, imagina para quem faz a festa”, instiga eros, apenas um dos milhares de frequentadores que sentem, há anos, os danos do embate entre a prefeitura de são paulo e o setor cultural da maior cidade da américa latina.
mesmo áreas formalmente públicas passam a exigir pagamento para uso, pois foram concedidas à iniciativa privada, o que desloca coletivos independentes para uma posição de constante negociação. “a cidade passa a selecionar quem pode ocupar determinados espaços”, afirma herling. alguns desses espaços são o vale do anhangabaú e a praça das artes, formalmente públicos, mas que, na prática, operam sob lógicas excludentes. realizar uma festa em locais como o komplexo tempo, um galpão privado devidamente estruturado para receber eventos de grande porte, acaba sendo muito mais viável.
quem conta isso é gabriel lopes, que, junto a lucas araque e jazon oliveira, fundou um dos principais nomes da cena nesta nova década, a novo affair. criado em 2023, o coletivo nasce no momento de crescimento abrupto da demanda por eventos e do aumento generalizado dos custos no setor, e se consolidou, tanto em público quanto em afeto, no calendário da cena.

originalmente outsiders, com experiências anteriores em festas menores em brasília e são paulo, os três se aproximaram e passaram a estruturar o próprio projeto, com a proposta de criar uma festa lgbtq+ de música eletrônica que fosse leve, alegre e dançante e profissional, atenta às condições de trabalho, experiência do público e diversidade de artistas. com line-ups frequentemente compostos por pessoas trans e racializadas, além de uma proposta sonora que transita entre diferentes vertentes musicais, a novo affair busca acolher também públicos que não necessariamente vêm da música eletrônica pesada com o qual a cena acabou se acostumando nos últimos anos. “se nós temos uma edição que foi boa para o público, mas não foi boa para quem trabalhou nela, então não foi uma edição boa”, declara gabriel ao se referir à importância de uma experiência positiva que seja 360º.

há de ser resistência. nem sempre a ocupação cultural e artística dos espaços públicos paulistanos enfrentou tantos obstáculos. durante a primeira metade da década passada, políticas públicas permitiram e incentivaram experiências mais amplas no espaço urbano. um dos programas mais lembrados pelos produtores da cena é o sp na rua, que viabilizava apresentações musicais e performáticas para todos. a tesãozinho inicial foi uma das beneficiadas por essa iniciativa, conta maria olivia, relembrando, de maneira saudosista, de uma época em que “ferviam subculturas na cidade”.

o sp na rua foi encerrado em 2017, durante o primeiro ano da gestão de joão doria. para a dj alírio, espaços de proteção são os primeiros a serem atravessados pelas tensões do mundo externo: “quando nós estamos passando por momentos difíceis, politicamente, essa barreira vai enfraquecendo”.
entre 2013 e 2016, uma série de iniciativas municipais abriu o espaço urbano para experiências artísticas diversas, com programas que incentivavam a ocupação de ruas, praças e equipamentos públicos por produtores independentes. a virada aconteceu abruptamente com a troca de gestão, em 2017, quando cortes orçamentários profundos desativaram ou enfraqueceram políticas que levaram anos sendo construídas.
gabriel, da novo affair, identifica uma mudança decisiva a partir da gestão de joão doria, quando, segundo a sua leitura, a tolerância institucional em relação ao uso festivo do espaço urbano diminuiu drasticamente. “ou você tem patrocínio ou você vai fazer uma festa elitizada”, afirma. entre alvarás, exigências administrativas crescentes e a progressiva verticalização de regiões antes mais permissivas, como partes da barra funda, o que se consolida é uma cidade cada vez menos disponível para experiências noturnas espontâneas e independentes.

os dados não mentem. as gestões seguintes não reverteram completamente esse quadro, e os últimos anos trouxeram um novo ingrediente: disputas ideológicas que passaram a interferir diretamente na programação de espaços públicos e na escolha de quem os ocupa.
diante desse cenário, práticas como lista trans e entrada gratuita até determinado horário, operam como tentativas concretas e discretas de enfrentar assimetrias históricas. não se trata apenas de ampliar o público, mas de reconhecer que determinados corpos encontram barreiras sistemáticas para ocupar esses espaços e, portanto, exigem medidas específicas para que essa presença seja possível.
em 2015, em recife, ana giselle, também conhecida como transälien, articulou uma das iniciativas de inclusão mais influentes da noite queer brasileira contemporânea ao criar a política de lista trans free, que garante entrada gratuita para pessoas trans e travestis em eventos privados. a medida foi implementada pela primeira vez na kebran, festa produzida pela própria artista na capital pernambucana, e nasceu da percepção de que não bastava haver artistas trans nos line-ups se os próprios corpos para os quais aqueles espaços, em tese, se destinavam, continuassem ausentes da pista. em são paulo, a iniciativa foi apresentada, mais tarde, à mamba negra, cuja adesão funcionou como catalisador para a sua disseminação entre outras festas da cidade.
apesar do sufoco imposto pelas políticas públicas atualmente em vigência, há sinais de que, sob gestão adequada, brechas podem se abrir. a edição de 2025 da virada cultural de são paulo, por exemplo, contou com palcos oficiais de festas como mamba negra, carlos capslock e submundo 808, marcando uma rara inserção da cena independente no calendário oficial da cidade na história recente.

iniciativas como estas não solucionam desigualdades estruturais, mas apontam para a possibilidade de que o público se mantenha público. quando o estado reconhece, ainda que pontualmente, o valor político dessas ocupações, elas passam a ser, acima de tudo, reivindicações de um futuro. há demanda, e sempre vai haver.

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