quando a pista ficou grande demais. do palco, já não dava mais para reconhecer todo mundo. entre uma transição e outra, um pensamento: havia algum tempo desde que era possível identificar rostos, trocar olhares e perceber pequenas reações individuais com facilidade. a energia passou a vir em ondas. ainda assim, algo permaneceu. um outro tipo de frequência, simbólica e compartilhada, que faz com que tudo ainda seja, de certa forma, o mesmo.

no ano seguinte, a pandemia de covid-19 fez com que clubes, festas e bares cessassem o som. após a flexibilização, pouco mais de dois anos depois, eros decidiu dar mais uma chance ao tipo de festa da qual havia fugido, assustado, e comprou ingresso para a mamba negra.
no ano seguinte, a pandemia de covid-19 fez com que clubes, festas e bares cessassem o som. após a flexibilização, pouco mais de dois anos depois, eros decidiu dar mais uma chance ao tipo de festa da qual havia fugido, assustado, e comprou ingresso para a mamba negra.
no ano seguinte, a pandemia de covid-19 fez com que clubes, festas e bares cessassem o som. após a flexibilização, pouco mais de dois anos depois, eros decidiu dar mais uma chance ao tipo de festa da qual havia fugido, assustado, e comprou ingresso para a mamba negra.
afinal, a única coisa que importava era sair de casa. mais maduro, sentiu alívio: “pronto, sou clubber”, brinca consigo mesmo.
afinal, a única coisa que importava era sair de casa. mais maduro, sentiu alívio: “pronto, sou clubber”, brinca consigo mesmo.


carolina schutzer e laura diaz, ou melhor, cashu e carneosso, são os nomes por trás daquela que, ao longo de pouco mais de uma década, atuou como um dos principais ritos de passagem da cena, ainda que sem a pretensão.
fundada em 2013, o destino da mamba negra não seria outro senão se tornar uma das maiores festas queers de música eletrônica não apenas de são paulo, mas do brasil, e cativar, durante 13 anos, tanto o público quanto um time imbatível de criadores.
fundada em 2013, o destino da mamba negra não seria outro senão se tornar uma das maiores festas queers de música eletrônica não apenas de são paulo, mas do brasil, e cativar, durante 13 anos, tanto o público quanto um time imbatível de criadores.

entre esses artistas está alírio, que chegou à discotecagem após passar a se envolver na construção de uma cena noturna lgbtq+ na cidade onde morava enquanto estudava medicina, a partir de iniciativas culturais ligadas à cultura ballroom em uberlândia, minas gerais. ela conta sobre uma noite que mudou a sua relação consigo mesma. justamente em uma edição cuja temática era ballroom, a dj decidiu conhecer a mamba negra. lá, ela viu pessoas trans ocuparem o centro da pista, competirem em desfiles performáticos e celebrarem identidades que, historicamente, enfrentam exclusão social. figurativamente, alírio nunca mais retornou de lá. “espaços como esses surgiram para criar lugares onde pessoas trans podem viver um protagonismo, mesmo que por uma noite”, desabafa. pouco tempo depois, ela deu início ao resgate de uma feminilidade que sempre esteve com ela, mas que raramente encontrava espaço para aparecer, se mudou para são paulo e se tornou residente da mamba negra, bem como um dos principais expoentes da cena nos últimos anos.
entre esses artistas está alírio, que chegou à discotecagem após passar a se envolver na construção de uma cena noturna lgbtq+ na cidade onde morava enquanto estudava medicina, a partir de iniciativas culturais ligadas à cultura ballroom em uberlândia, minas gerais. ela conta sobre uma noite que mudou a sua relação consigo mesma. justamente em uma edição cuja temática era ballroom, a dj decidiu conhecer a mamba negra. lá, ela viu pessoas trans ocuparem o centro da pista, competirem em desfiles performáticos e celebrarem identidades que, historicamente, enfrentam exclusão social. figurativamente, alírio nunca mais retornou de lá. “espaços como esses surgiram para criar lugares onde pessoas trans podem viver um protagonismo, mesmo que por uma noite”, desabafa. pouco tempo depois, ela deu início ao resgate de uma feminilidade que sempre esteve com ela, mas que raramente encontrava espaço para aparecer, se mudou para são paulo e se tornou residente da mamba negra, bem como um dos principais expoentes da cena nos últimos anos.

o corpo que veste a noite. a noite que veste o corpo. os corpos participam ativamente, como protagonistas, da narrativa noturna da cidade. a estilista vicenta perrotta, artista e ativista que, há anos, utiliza a moda como ferramenta de expressão política, descreve a “montação” como eixo da experiência. conhecida por seu trabalho de “transmutação têxtil”, dinâmica na qual roupas descartadas são transformadas em novas peças, livres de papéis de gênero e ainda mais carregadas de significado, perrotta também articula projetos coletivos de upcycling, como o ateliê transmoras, voltado à capacitação de pessoas trans para o mercado de trabalho da costura.
o corpo que veste a noite. a noite que veste o corpo. os corpos participam ativamente, como protagonistas, da narrativa noturna da cidade. a estilista vicenta perrotta, artista e ativista que, há anos, utiliza a moda como ferramenta de expressão política, descreve a “montação” como eixo da experiência. conhecida por seu trabalho de “transmutação têxtil”, dinâmica na qual roupas descartadas são transformadas em novas peças, livres de papéis de gênero e ainda mais carregadas de significado, perrotta também articula projetos coletivos de upcycling, como o ateliê transmoras, voltado à capacitação de pessoas trans para o mercado de trabalho da costura.
é a partir dessa visão de moda como prática performativa que ela observa a relação íntima entre vestir e ocupar a noite: “a noite é importante para a ‘montação’, né? ou a ‘montação’ é importante para a noite?”, diz, gargalhando. “é onde brilha a maquiagem e você consegue botar um ‘lookzão’ pesado”,
é a partir dessa visão de moda como prática performativa que ela observa a relação íntima entre vestir e ocupar a noite: “a noite é importante para a ‘montação’, né? ou a ‘montação’ é importante para a noite?”, diz, gargalhando. “é onde brilha a maquiagem e você consegue botar um ‘lookzão’ pesado”,



luccas morais é ladyletal, o artista visual responsável por alguns amuletos icônicos da cena. em seu ateliê no centro de são paulo, no anhangabaú, ele produz estamparias a partir de imagens emblemáticas para a comunidade lgbtq+ no contexto digital. “esse lugar é muito da internet, o que eu faço é tirar ele de lá e colocar para andar”, explica, envolto por seus trabalhos que, com certa frequência, me distraem.
luccas morais é ladyletal, o artista visual responsável por alguns amuletos icônicos da cena. em seu ateliê no centro de são paulo, no anhangabaú, ele produz estamparias a partir de imagens emblemáticas para a comunidade lgbtq+ no contexto digital. “esse lugar é muito da internet, o que eu faço é tirar ele de lá e colocar para andar”, explica, envolto por seus trabalhos que, com certa frequência, me distraem.
o resultado funciona quase como um sistema de sinais compartilhados entre os frequentadores assíduos de festas independentes de música eletrônica. ele conta sobre uma vez em que um amigo o enviou uma mensagem de texto dizendo que sempre que se depara com alguma de suas peças em uma festa, tem a sensação de que o “rolê” estará protegido.
o resultado funciona quase como um sistema de sinais compartilhados entre os frequentadores assíduos de festas independentes de música eletrônica. ele conta sobre uma vez em que um amigo o enviou uma mensagem de texto dizendo que sempre que se depara com alguma de suas peças em uma festa, tem a sensação de que o “rolê” estará protegido.
para isso, ladyletal conta que precisou, primeiro, desaprender a linguagem que o acompanhava desde a infância. filho de pastor, durante anos, a religião foi o seu único repertório estético e afetivo, até que a percepção de não pertencimento tornou insustentável a tentativa de adequação. a sua passagem pela etec parque belém e, mais tarde, a sua graduação em comunicação visual, marcou o início de outra educação, mediada pelo contato com a diversidade. música, cinema, design. mais tarde, novas referências o apresentaram à possibilidade de experimentação que reverbera, até hoje, em sua arte. foi na noite que essa sensibilidade encontrou forma concreta. por meio de intervenções que entendiam a pista como espaço expandido de criação, ladyletal criou uma linguagem capaz de condensar memória, humor e pertencimento.
para isso, ladyletal conta que precisou, primeiro, desaprender a linguagem que o acompanhava desde a infância. filho de pastor, durante anos, a religião foi o seu único repertório estético e afetivo, até que a percepção de não pertencimento tornou insustentável a tentativa de adequação. a sua passagem pela etec parque belém e, mais tarde, a sua graduação em comunicação visual, marcou o início de outra educação, mediada pelo contato com a diversidade. música, cinema, design. mais tarde, novas referências o apresentaram à possibilidade de experimentação que reverbera, até hoje, em sua arte. foi na noite que essa sensibilidade encontrou forma concreta. por meio de intervenções que entendiam a pista como espaço expandido de criação, ladyletal criou uma linguagem capaz de condensar memória, humor e pertencimento.









a relação entre arte e pista de dança acompanha a história da cena desde o final dos anos 1980. naquele período, clubes como nation, madame satã e massivo ajudaram a estabelecer um ambiente em que estética, música eletrônica e comunidade lgbtq+ dariam origem àquilo que, apenas anos mais tarde, seria chamado de cultura clubber. erika palomino, jornalista, curadora e diretora criativa, bem como uma das principais responsáveis pelo registro desse período, acompanhou de perto o momento enquanto assinava a coluna “noite ilustrada” na folha de s.paulo, relatando a emergência dos clubbers e revelando os nomes da moda e da música da noite paulistana.
a relação entre arte e pista de dança acompanha a história da cena desde o final dos anos 1980. naquele período, clubes como nation, madame satã e massivo ajudaram a estabelecer um ambiente em que estética, música eletrônica e comunidade lgbtq+ dariam origem àquilo que, apenas anos mais tarde, seria chamado de cultura clubber. erika palomino, jornalista, curadora e diretora criativa, bem como uma das principais responsáveis pelo registro desse período, acompanhou de perto o momento enquanto assinava a coluna “noite ilustrada” na folha de s.paulo, relatando a emergência dos clubbers e revelando os nomes da moda e da música da noite paulistana.

palomino observa que ambientes do tipo sempre funcionaram como verdadeiros laboratórios de identidade: “são lugares onde você pode experimentar em todas as frentes que quiser. experimentar em relação a você mesmo e às outras pessoas e encontrar a sua identidade, os seus pares e o seu lugar no mundo”, declara em evento na livraria megafauna copan, em novembro do ano passado, durante evento de promoção da obra “babado forte: 35 anos de cultura jovem no brasil”. o livro sintetiza os principais episódios do setor cultural brasileiro, especialmente no tocante ao universo clubber, desde 1999, ano de publicação de “babado forte: moda, música e noite na virada do século 21”, um dos maiores responsáveis por registrar do início desse movimento.
palomino observa que ambientes do tipo sempre funcionaram como verdadeiros laboratórios de identidade: “são lugares onde você pode experimentar em todas as frentes que quiser. experimentar em relação a você mesmo e às outras pessoas e encontrar a sua identidade, os seus pares e o seu lugar no mundo”, declara em evento na livraria megafauna copan, em novembro do ano passado, durante evento de promoção da obra “babado forte: 35 anos de cultura jovem no brasil”. o livro sintetiza os principais episódios do setor cultural brasileiro, especialmente no tocante ao universo clubber, desde 1999, ano de publicação de “babado forte: moda, música e noite na virada do século 21”, um dos maiores responsáveis por registrar do início desse movimento.
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